Categorias: Autoestima, Relacionamento

A busca da “cara-metade”

Esta matéria foi pensada após a frequência com que chega ao meu consultório e também em grupos de amigas, mulheres se queixando da dificuldade de estabelecerem relacionamentos íntimos de acordo com o que buscam, que segundo elas é uma relação séria, muitas vezes nomeada como namoro.

Quem são essas mulheres?

Muitas delas são independentes, com a vida social ativa, boa aparência e bom papo. Pessoas que num primeiro momento não entenderíamos porque estão com tantas dificuldades para encontrarem um parceiro. Reclamam da falta de habilidades para manterem uma relação mais íntima, que vá além de encontros esporádicos e descompromissados. Infelizes, se questionam sobre o que tem de errado com elas ou com os homens.
Muitas vezes as percebi idealizando relações, buscando o par perfeito, a cara-metade. Sonhando conhecer um homem, os dois se apaixonarem e que o desenvolvimento da relação acontecesse de forma fluida. Dessa forma chegam à terapia cheias de valores introjetados (mecanismo de ajustamento nos quais valores, modos de agir e pensar são passados sem que aja a assimilação, ou seja, sem ser analisado, reorganizado, digerido pela pessoa) que impedem que estejam abertas para novas formas de ver e encarar uma relação a dois. Apresentam discursos contraditórios em relação aos papéis e postura feminina. Muitas vezes presas a padrões antigos de relacionamento. Possuem dificuldade para discriminar amor, paixão, carência, sexualidade e solidão.
Há uma falta de habilidade para se relacionar, por se sentirem perdidas, idealizam o parceiro, se submetem a coisas que não querem, ou ficam focadas em satisfazerem suas necessidades esquecendo que o outro também tem demandas. Ao invés de buscarem pessoas com as características que elas desejam num parceiro, querem que as pessoas que elas escolheram se adaptem as características e modos de agir que elas julgam importantes. Dependendo do quanto estão conectadas ou não com o que precisam, não conseguem distinguir o que faz sentido para elas viverem numa relação e o que não faz. Que características uma relação precisa ter e como construir uma relação embasada nela. Não aprenderam a identificar e estimular seus próprios desejos. E a busca ao invés de ser ao que dá sentido a sua existência, é feita em direção ao que não se tem e ao resultado da ação, porém esta é uma busca sem fim, presa a padrões e papeis da mulher.
Possuem baixa auto-estima. Seus medos e comportamentos desatualizados vêm de outras relações que elas estabeleceram principalmente na infância e que deixaram marcas e faltas ainda hoje não superadas e atualizadas.

Quais são as justificativas usadas para não conseguirem iniciar ou se manterem numa relação estável?

Justificativas não faltam para explicar a falta de êxito. Algumas culpam os homens argumentando que a maioria não quer compromisso e sim liberdade; outras responsabilizam a si próprias alegando dificuldades para iniciar uma relação de entrega; há quem culpe as outras mulheres, explicando que a maioria está “fácil demais”. Entre muitas outras… Diante da vontade de estabelecer um relacionamento estável e das justificativas para não o conseguir, penso na responsabilidade dessas mulheres frente ao seu desejo de encontrar um parceiro e também a de não conseguir.

Em que sociedade elas estão inseridas?

Segundo Sampaio (2004) nossa sociedade exige a perfeição. Fala ainda que a procura do parceiro, é feita na direção de um par perfeito, baseando-se em seus valores familiares herdados e seus valores atuais, modelos estes que misturam características antagônicas e inconciliáveis. Busca-se um ideal que não condiz com a realidade, uma paixão avassaladora para a vida toda com um par perfeito, sem enfrentar problemas e rotina, porém quando se deparam com a realidade sentem-se frustradas.
Vivemos em um mundo de compulsão, individualismo, vaidade, busca por experiências novas e experimentação, que possibilita o distanciamento das pessoas. Essa nova realidade protege e ajuda pessoas que querem manter relações superficiais e/ou que têm medo da entrega ao outro. O que mostra a falta de disponibilidade que nem sempre é percebida por quem está vivendo esses conflitos. Além disso, estamos inseridos numa sociedade consumista onde as pessoas buscam certezas, garantias, segurança, formulas prontas, controle e poder numa relação e tudo de preferência com um manual de instrução e que não demande muito esforço na hora de segui-lo.

A mulher e os padrões estereotipados

São as trocas que os seres humanos estabelecem entre si, ao longo da vida, e a forma como elas vão sendo assimiladas que nortearão como irão se relacionar com as pessoas ao seu redor, inclusive seus parceiros afetivos/sexuais.
Sampaio (2004) pontua que a escolha amorosa não é neutra, tendo como pano de fundo a história pessoal e familiar da pessoa, porém o ser humano é livre para fazer suas escolhas, mas deve se responsabilizar por elas, sabendo que existirão ganhos e perdas. Seus valores que foram passados de geração em geração podem ser contraditórios a alguns valores da sociedade atual, por esse motivo é necessário que haja uma discriminação desses valores, cedendo e abandonando as partes que não condizem com quem se é hoje e aproveitando as que as representa.
Rímoli (2005) pontua que o feminino está atrelado a padrões coletivos, precisando a mulher se diferenciar e assumir sua identidade e qualidades. Não ficar esperando que o amor venha da relação com o masculino, mas sim gerenciar o amor por si mesma, ter consciência de sua individualidade, se descobrindo, experimentando, valorizando a intuição, o instinto, a emoção e o sentir como formas de orientação e validação a serem refinadas e desenvolvidas até se tornarem uma habilidade. Ou seja, buscarem o autoconhecimento e a autoaceitação. Sinaliza ainda que nesta trajetória a mulher corre riscos e a dor é inevitável, porém devem assumir as responsabilidades pelos seus atos, pois é através das experiências pessoais que podem surgir novos valores, mas para isso é preciso passar pelos seus medos e dificuldades.
Segundo Alegria (2010/2011, p.44):
“(…)acredito que o único caminho de libertação é contactarmos nossos desejos mais autênticos, nos conscientizarmos de nossas contradições e nos responsabilizarmos por elas, encontrando a cada momento o caminho que nos seja possível viver de maneira mais inteira.”

Como a terapia pode ajudar?

O sintoma se repete na tentativa de fechar a situação inacabada, porém usando mecanismos desatualizados e com pouca consciência, o que leva a insatisfação das necessidades, sofrimento e angústia. É na pouca consciência do conteúdo reprimido, que quando assumida a responsabilidade por ele, pode ser usada como fio condutor para a mudança.
Na terapia é imprescindível tornar consciente a forma com esta mulher está se relacionando, entrar contato com o que está vivendo e sentindo, desmistificar padrões introjetados, encontrando suas potencialidades, aceitando suas reais necessidades e a partir dai fazer novos ajustamentos criativos, mais de acordo com o que precisam. Esse é um percurso pelo autoconhecimento, autosuporte e autoaceitação.
Como Gestalt-terapeuta acredito no ser humano ativo e criativo, capaz de se transformar, reformular, criar, sonhar, desejar, conviver com as diferenças e a partir delas crescer.

Referências
ALEGRIA, C. Contextualizando os mitos da Sexualidade Feminina. São Paulo: Sampa GT – nº 6 – Instituto de Gestalt de São Paulo, 2010/2011
BAUMAN, Z. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2004.
RÍMOLI, F. O desafio de ser feminino. São Paulo: Revista de Gestalt – nº 14 – Instituto Sedes Sapientiae, 2005
SAMPAIO, M. Conflitos de Valores na Escolha Amorosa da Atualidade. São Paulo: Revista de Gestalt – nº 13 – Instituto Sedes Sapientiae, 2004