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Conhecendo a Terapia de Grupo

Gostaria de deixar claro que o objetivo deste artigo não é trazer “a” maneira correta de trabalho psicoterapêutico de grupo, mas sim algumas informações para o leitor sobre terapia de grupo e principalmente a minha forma de pensar e trabalhar numa terapia de grupo.

Existem diferentes modalidades de psicoterapia. Terapia Individual, Casal, Família e Grupo. Cada uma delas tem sua importância e algo para contribuir a quem se submete a elas.

O ser humano é um ser social, inserido em muitos grupos ao longo de sua vida, por exemplo: grupo familiar, vizinhança, trabalho, religioso, de estudos, entre outros e está o tempo todo trocando com esses grupos ao qual está inserido, afetando e sendo afetado por eles. A forma de se relacionar e o contato que estabelece consigo mesmo vai dizer muito sobre o meio ao qual a pessoa faz parte, a criação que teve, seus valores, influências, vivencias, regras, a qualidade das trocas que estabeleceu ao longo de sua vida, e principalmente como foi sentindo e vivendo cada uma dessas informações e trocas ao qual foi exposto ao longo da vida.

Percebo na prática clínica a dificuldade que alguns clientes apresentam na interação com outras pessoas, queixas de impasses que vivem na troca, como sensação de incompreensão (seja por se sentir incompreendido, ou por não compreender o outro), solidão (mesmo estando rodeados de pessoas), exposição, falta de confiança, julgamentos, timidez, isolamento, são comuns. Algumas pessoas relatam que tem dificuldades de estarem inseridas em grupos e lutam para se relacionarem e envolverem-se com os outros. Observado isto, vejo na terapia de grupo uma grande aliada na tentativa de trabalhar estas, entre outras queixas e dificuldades, que as pessoas que chegam ao meu consultório apresentam.

A terapia de grupo muitas vezes é rejeitada ou vista com certa estranheza pelo cliente, mesmo o psicólogo identificando vários ganhos que o cliente poderia ter neste atendimento, seja por medo de exposição, por falta de conhecimento sobre essa modalidade terapêutica, por receio de não conseguir trocar com os outros participantes, por dificuldade de falar do que lhe aflige, por não ser um espaço só seu e não dar tempo de falar, entre outros receios e/ou pré-conceitos.

Benefícios da Terapia de Grupo:

Na Terapia de Grupo, temos a oportunidade de estabelecer contato com pessoas com diferentes bagagens de vida, que chegam com suas formas de colocar-se no mundo e maneiras de experimentar o vivido e encontram no grupo a chance de interagir, trocar, compartilhar experiências, socializar, trabalhar conflitos emocionais, a aceitação e autoaceitação, entre outros, umas com as outras. Para Martins (2001 p.43), o grupo representa um recorte da vida social, pois implica em relação e espelha o cotidiano em que estamos todos inseridos.

Os participantes do grupo influenciam e são influenciados o tempo todo uns pelos outros, pelo terapeuta e por todas as variáveis que compõe o grupo. O olhar de cada membro do grupo sobre um mesmo assunto é sempre válido e fala sobre a forma de cada um se relacionar.

No grupo o indivíduo poderá fazer contato com outras pessoas, experimentar o novo, buscar novas formas de pensar e agir, ao invés de continuar cristalizado em seus pensamentos e comportamentos.

O cliente tem a oportunidade de experimentar dentro do grupo o que vive fora dele. Explorando a forma como se coloca no mundo, favorecendo assim a tomada de consciência do que está vivendo, das suas sensações e comportamentos, da maneira como está funcionando no seu contato com o outro, descobrindo que é responsável por suas escolhas e podendo adquirir novas formas de agir.

Na terapia de grupo, seus membros têm a oportunidade de beneficiarem-se com o que está sendo trabalhado em outros clientes através da observação do que está sendo trazido, dos feedbacks e das intervenções feitas tanto pelos terapeutas como pelos demais membros do grupo, abrindo espaço para autodescobertas. Para Martins (2001 p.46), “o grupo possibilita uma maior compreensão de si e dos outros à medida que todos participam e contribuem na resolução dos problemas dos outros. Este contato irá permitir que todos experienciem o aqui e agora com outras pessoas”. E ainda, segundo Vinogradov e Yalom (1992 p.20) “Em todos os grupos de terapia, os pacientes tornam-se extremamente úteis uns aos outros: compartilham problemas similares e oferecem apoio, reasseguramento, sugestões e insight uns aos outros.”

Público alvo:

No geral são as pessoas que buscam esse tipo de acompanhamento, ou então procuram por uma terapia individual e se deparam também com esta modalidade de atendimento como opção de terapia. É importante que o cliente entenda que o objetivo desta modalidade de terapia é a troca, os feedbacks e as vivências que vão acontecendo no interior do grupo.

Sempre opto por fazer uma primeira entrevista com todos os possíveis participantes para avaliar antes da entrada de cada um no grupo se tem algum impedimento para pessoa ingressar numa terapia de grupo ou entrar num determinado grupo específico e se é uma boa indicação para o momento que o grupo está vivendo.

Formato do Grupo:

Os grupos podem ser homogêneos, ou seja, com pessoas com problemas, sintomas e doenças semelhantes, ou heterogêneos, com indivíduos que possuem dificuldades diferentes e que buscam a terapia por motivos distintos.

As regras sobre a composição do grupo são escolhidas pelo terapeuta de acordo com sua forma de trabalhar e objetivo do grupo. É ele que dirá a faixa etária, se será um grupo misto (pessoas de ambos os sexos) ou não, temático ou não, o tempo de duração das sessões, periodicidade (semanal, quinzenal, mensal), se será um grupo aberto (não há um compromisso rígido de frequência e novos membros podem entrar e sair a qualquer momento), semi-aberto (novos membros podem entrar já com o grupo em andamento, ou antigos podem sair antes que o grupo acabe, porém há um compromisso com a frequencia, sigilo, pontualidade durante esse período de permanência no grupo), ou fechado (o grupo começa e termina com os mesmo participantes).

No meu caso, trabalho com a terapia de grupo feita em consultório particular, com grupos heterogêneos, semanalmente, num formato semi-aberto, podendo receber novos membros a qualquer momento e também ter a saída de algum componente sem que o grupo esteja acabando.

Considero extremamente importante a assiduidade, o comparecimento sem atrasos constantes, a obrigatoriedade do sigilo e do respeito entre seus participantes, além da despedida do grupo, caso a pessoa esteja se desligando do mesmo.

Quem irá ditar o caminho a ser percorrido pelo grupo serão seus próprios componentes. O terapeuta tem o papel de facilitar a entrada do cliente no grupo, acompanhar o movimento e o momento em que o grupo se encontra, auxiliando-os nesta caminhada e trabalhando os medos e outras questões que vão surgindo. O terapeuta funciona como um facilitador.

Podemos trabalhar não somente o que é trazido pelo cliente e que ocorreu no exterior do grupo, mas também o que acontece nas relações estabelecidas entre os membros e seus impasses. O que nos deixa mais próximos das dificuldades que o cliente queixa-se e do que estamos trabalhando. E não mais estamos somente nos baseando em relatos, mas sim no que observamos e vivenciamos no grupo.

A arrogância, impaciência, competição, valores, medos, atrações, timidez, inveja, similaridades, diferenças, entre outros sentimentos e características acabam aparecendo no grupo, e o terapeuta tem a oportunidade de trabalhar com o que eles estão vivenciando naquele momento.  Aproximando assim o terapeuta do que o cliente vive, pois não é mais somente um discurso de como ele lida em seus diferentes meios sociais ou como se sente em diferentes ocasiões externas ao grupo, mas sim a oportunidade de o terapeuta acompanhar o que antes era dito somente em relatos.

Bibliografia:

MARTINS, Mariane Jaques. O trabalho com Grupos: uma abordagem gestáltica. Rio de Janeiro, 2001. Monografia UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

VINOGRADOV, Sophia. E YALOM, Irvin D. Psicoterapia de Grupo: um manual prático. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

Psicóloga Priscila Marques